BLOG2020-09-12T18:09:45+00:00

Blog Yogafaro

  • Repiração 2

Respiração Parte II

Yoga e respiração

Quando alguém inicia a prática de Yoga, um dos aspetos que marca a relação com esta disciplina é o desenvolvimento de um contacto mais “íntimo” e consciente com a própria respiração.
Embora respirar seja essencialmente um processo automático (tronco cerebral e medula), pode ser também controlado de forma voluntária (córtex cerebral) [3] . Durante a exploração da respiração através dos exercícios e técnicas propostas no contexto da prática de Yoga, desperta-se a atenção para a consciência da respiração natural (automática) e para o desenvolvimento da respiração profunda (controlo voluntário). Entre outros aspetos, de encontro à forma mais natural e fisiologicamente mais correta de respirar, sugere-se na prática de Yoga o desenvolvimento de uma respiração consciente e nasal. Existem certamente exercícios com instruções diferentes em que pontualmente se faz recurso à respiração pela boca, mas são exceções circunscritas a práticas e objetivos específicos devidamente contextualizados. Num processo de conhecimento, aprofundamento e muitas vezes de reeducação da respiração, é essencial referir e realçar a importância de se respirar pelo nariz com a boca fechada.

A respiração pela boca

A boca deve ser utilizada para respirar em situações pontuais e específicas como:
– Em caso de congestionamento nasal temporário;
– Em caso de irregularidades anatómicas que impeçam o fluxo de ar nasal (ex. desvio do septo nasal);
– Em modalidades de exercício ou de terapia cuja instrução assim o indique por requisito da técnica utilizada.
Em relação à última situação, é importante perceber que a sugestão de respirar pela boca por requisito da técnica está limitada ao exercício específico ou terapia e não é o modo fisiologicamente correto para respirar fora daquele contexto. Se observarmos um bebé a dormir, respira calmamente pelo nariz.

A respiração fisiologicamente correta

Existe já uma vasta gama de literatura que menciona a relação entre a respiração nasal e o desempenho de processos cognitivos. Por exemplo, um estudo de 2016 [4] que pretendeu relacionar a respiração nasal com a resposta cognitiva a diferentes estímulos, refere que os indivíduos que participaram na investigação tiveram melhor desempenho em recordar memórias de objetos visuais quando confrontados com as imagens na fase da inspiração nasal do que durante a expiração. Um dos aspetos críticos desta investigação foi a descoberta de que a resposta cognitiva diminuía consideravelmente se o percurso da respiração fosse alterado para a respiração oral.
A ligação entre a respiração e o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) está também presente num artigo [5] que sugere que a respiração oral pode ter efeitos adversos no funcionamento cerebral . Neste estudo os investigadores observaram que durante a respiração oral, há um aporte maior de fornecimento de oxigénio na região do córtex pré-frontal, que pode ser uma causa de TDAH.
Publicado pela revista General Dentistry , um outro artigo [6] refere as consequências negativas da obstrução das vias respiratórias superiores (respiração oral) no crescimento facial das crianças. Este estudo indica que as crianças que respiram predominantemente pela boca desenvolvem um crescimento facial anormal; problemas de mal oclusão dentária e estão mais expostas a desenvolver desordens e apneia do sono. Em termos de crescimento facial, as crianças com respiração predominantemente oral, têm tendência para exibir em adolescentes/adultos, faces mais estreitas e alongadas, lábios superiores mais pequenos, palatos mais estreitos, uma dentição mais irregular e retrognatismo mandibular (uma posição mais posterior da mandíbula). É também característico uma expressão facial mais vaga e distante em crianças que respiram com a boca aberta.
Para além destes efeitos, acrescenta-se ainda o facto de a boca ser uma mucosa. O interior da boca é fisiologicamente quente e húmido. A constante respiração pela boca, irrita as mucosas, torna a boca mais seca e propícia ao desenvolvimento de bactérias que afetam a saúde geral da boca e dos dentes.
De acordo com o conhecimento disponível, existem razões suficientes para se estar atento à respiração, nomeadamente à respiração das crianças, para que desenvolvam o mais cedo possível a respiração correta – nasal – e se diagnostiquem outros problemas estruturais que impeçam a respiração pelo nariz.
Neste sentido, a prática de Yoga, continua a ser uma ferramenta de excelência para o desenvolvimento de uma respiração consciente e fisiologicamente correta, na qual é sistematicamente enfatizada a importância da respiração nasal.

Referências bibliográficas:

[3] Espanha, M., Silva, P., Pascoal, A., Correia, P., & Oliveira, R. (2007). Anatomofisiologia, Tomo III. Funções da Vida Orgânica Interna. Lisboa: FMH.

[4] Zelano, C., Jiang, H., Zhou, G., Arora, N., Schuele, S., Rosenow, J., & Gottfried, J. A. (2016). Nasal Respiration Entrains Human Limbic Oscillations and Modulates Cognitive Function. The Journal of neuroscience: the official journal of the Society for Neuroscience36(49), 12448–12467. doi:10.1523/JNEUROSCI.2586-16.2016

[5] Sano, M., Sano, S., Oka, N., Yoshino, K., & Kato, T. (2013). Increased oxygen load in the prefrontal cortex from mouth breathing: a vector-based near-infrared spectroscopy study. Neuroreport24(17), 935–940. doi:10.1097/WNR.0000000000000008

[6]Jefferson, Y. (2010).Mouth breathing: adverse effects on facial growth, health, academics, and behavior. General Dentistry. Jan-Feb; 58 (1): 18-25; quiz 26-7, 79-80. Review.

By |Janeiro 26th, 2020|Categories: textos|Tags: , , |
  • A respiração

Respiração Parte I

Respiração

Habitualmente o termo respiração usa-se para designar o fenómeno associado à movimentação do ar para dentro e para fora do nosso corpo. É do senso comum que esse processo é vital e envolve trocas gasosas entre o nosso corpo e o ambiente exterior. Menos comum é o conhecimento dos aspetos físicos e químicos da respiração e a sua complexidade enquanto sistema (respiratório) e no seio da sua relação com os outros órgãos e sistemas do corpo humano, como por exemplo: a boca, o cérebro, sistema circulatório, etc.

Respirar é um fenómeno que envolve vários processos de dimensões macro e microscópica. Ao nível macro são visíveis e/ou detetáveis alguns efeitos que a respiração gera no corpo como por exemplo: sente-se a circulação do ar nas narinas e vê-se a expansão/contração da grelha costal e o consequente movimento do tronco durante a ventilação pulmonar (movimento do ar nas fases de inspiração e expiração). Ao nível microscópico são muitos os processos envolvidos na respiração: as trocas gasosas ao nível dos pulmões; as trocas gasosas e a produção de energia ao nível celular; os processos neuronais que controlam a respiração e fazem a comunicação com o sistema nervoso central, entre outros.

A respiração nasal

A cavidade nasal (o interior do nariz) contacta com o exterior através dos dois orifícios a que damos o nome de narinas. As narinas (cavidade nasal direita e esquerda) são divididas por uma parede cartilaginosa (na parte anterior) e óssea (na parte posterior) e estendem-se até à faringe (nasofaringe) através dos coanes (orifícios que contactam diretamente com a faringe)[i].

As narinas, revestidas por membranas mucosas, têm um papel fundamental na climatização do ar que entra para dentro do corpo. O ar exterior passa por vários processos antes de viajar para o interior dos pulmões. Um dos processos mais conhecidos é o de purificação. As pilosidades nasais permitem a fixação de partículas maiores e indesejáveis, como pequenas poeiras, nas paredes mucosas das narinas. Posteriormente através de outros processos essas partículas são removidas pela faringe. A filtragem é sem dúvida um dos aspetos essenciais, mas não o único. As fossas nasais têm também as funções de humedecer e aquecer o ar que entra, tornando-o ameno ao interior dos pulmões que é quente e húmido; servem como compartimento de ressonância (amplificação da voz) e é lá que estão alojadas as estruturas que permitem o reconhecimento olfativo.

Realçando a indissociável relação entre o nariz (sistema respiratório) e a boca (sistema digestivo), pois é difícil comer algo que não tenha um odor aprazível, estes dois órgãos, embora relacionados não se substituem.

[i] Espanha, M., Silva, P., Pascoal, A., Correia, P., & Oliveira, R. (2007). Anatomofisiologia, Tomo III. Funções da Vida Orgânica Interna. Lisboa: FMH.

By |Maio 23rd, 2019|Categories: textos|Tags: , , |
  • Invertida sobre a cabeça

Alinhamento e segurança no Asana (posição de yoga) parte II

Quando não respeitamos o corpo e insistimos em forçar um alinhamento que embora consideremos ser o mais correto para uma determinada posição, não o é para o nosso corpo, estamos a afastar-nos de um dos propósitos do yoga, que é a expansão da consciência. Não podemos expandir a consciência quando permitimos que o ego construa âncoras que nos prendem a ideais desajustados de perfeição. Deixamos de estar receptivos àquilo que está para além das camadas mais densas do nosso corpo e que cada posição faz vibrar de uma maneira muito particular, focando-nos apenas em atingir a forma ideal, correndo o risco de no final atingir uma forma oca e sem substância, vazia de consciência.

O alinhamento base é um ponto de partida, uma referência fundamental para estabelecermos o estado vibratório que caracteriza aquela determinada posição. Contudo para estabelecermos esse estado vibratório, precisamos de um instrumento e esse instrumento é o nosso corpo, e assim como a vibração gerada por um violoncelo a tocar uma determinada nota é diferente no que diz respeito ao timbre da vibração gerada por um violino a tocar essa mesma nota, também diferentes corpos a reproduzir uma determinada posição, podem chegar ao mesmo estado vibratório mas com pernas e braços de comprimentos diferentes. Tomemos como exemplo o fémur, o osso mais longo do corpo humano, duas praticantes de yoga com uma diferença entre elas na forma como as respetivas cabeças dos fémures estão orientadas em relação ao corpo do fémur, podem expressar percepções completamente diferentes de conforto na posição sentada com as pernas cruzadas. Enquanto que para uma a posição sentada de pernas cruzadas pode estar imediatamente acessível e ser muito confortável para a outra essa mesma posição pode revelar-se muito exigente e precisar de algumas adaptações para ser minimamente confortável.

Para alguém que tenha os músculos da cadeia posterior muito encurtados, será mais difícil fazer corretamente uma posição como o paschimottanasana (posição sentada de flexão à frente), sendo que a tendência para forçar a flexão do tronco à frente nesta posição sem conseguir uma boa anteversão da bacia pode levar a uma excessiva compressão dos discos intervertebrais da coluna lombar.

O sirsasana (posição invertida sobre a cabeça) tem benefícios inegáveis, mas tem também um grande potencial para a lesão quando mal executado ou quando executado por alguém que não está devidamente preparada para o fazer. O comprimento do pescoço em relação ao comprimento do úmero (osso do braço) pode em determinados indivíduos representar uma proporção desajustada para a prática desta posição a menos que se façam modificações na abordagem à posição. Insistir nesta posição sem essas modificações de segurança pode por exemplo ao longo dos anos, levar à artrite degenerativa do pescoço.

Perceber a diferença entre superar um desafio e gerar um potencial para a lesão é fundamental. Conjugando uma atenta observação do corpo e sincero respeito pelos sinais que ele nos dá, com uma orientação informada e profissional por parte de quem está a ensinar, conseguimos superar os desafios que cada posição nos apresenta de forma segura e ajustada e dessa forma contribuir para a expansão da consciência.

By |Julho 8th, 2018|Categories: textos|Tags: , , , , |
Go to Top